Interdisciplinaridade: o maker como principal aliado na sala de aula

Interdisciplinaridade: o maker como principal aliado na sala de aula

Já imaginou transformar os espaços de aprendizagem e tornar a sua escola um lugar para a experimentação, a criatividade e a prática do conhecimento? Essa é a proposta da cultura maker, que já é uma realidade incorporada à educação, como uma forma de estímulo aos processos de investigação e construção de saberes.

Entre os muitos aspectos positivos da metodologia está a interdisciplinaridade, ou seja, a exploração, através do mão na massa, de temas e conteúdos desenvolvidos nas disciplinas, de acordo com aquele momento, mostrando ao aluno como eles podem ser usados na realidade do dia a dia. Assim, o aprendizado de matemática, física, química e tantas outras matérias que podem parecer sem sentido se tornam mais interessantes. 

Para você entender melhor como a metodologia do Nave à Vela pode ser uma grande aliada na sala de aula, conversamos com o Alexandre Cleaver, nosso editor de Produto & Desenvolvimento.

De que forma as coleções do Nave à Vela auxiliam o educador a trabalhar os conceitos de mais uma disciplina?

Há dois aspectos fundamentais que precisam ser considerados nessa resposta. O primeiro é teórico, e diz respeito à abertura que nos é proporcionada pela nossa abordagem pedagógica e pela nossa especialidade, cada qual a sua maneira. 

Todas as nossas soluções são voltadas para o ganho de habilidades e competências e utilizam-se de atividades práticas para materializar conhecimentos que, em muitos casos, continuam sendo apresentados aos alunos de forma exclusivamente expositiva. É dizer, ao não ter o conteúdo como um fim em si mesmo, já somos levados a pensar em experiências educacionais cujo foco está no encontro entre diferentes conceitos e na vivência que, juntos, eles podem proporcionar aos alunos e educadores.

Porém, isso não impediria que os conceitos que estão sendo concatenados não pudessem fazer parte de um mesmo componente curricular, como acontece em outros materiais que trabalham com foco no ganho de habilidades e competências (ou, até mesmo, na forma como está organizada a Base Nacional Comum Curricular, embora ali também haja o incentivo contínuo à transversalidade e à interdisciplinaridade). É aí que o maker e, de forma mais ampla, as atividades ditas “práticas”, entram para completar a receita. Ora, o espaço da exploração do mão na massa, do empirismo, do aprender fazendo, é o mundo e as coisas que o compõem. E esse também é o espaço da interdisciplinaridade! Se no âmbito da teoria a divisão do conhecimento gera muitos frutos, organizando o pensamento e facilitando a comunicação, quando vamos à prática esses conhecimentos precisam necessariamente ser recombinados.

Portanto, esse encontro nos fornece um espaço de criação sem igual, em que as experiências educacionais são intrinsecamente multi e interdisciplinares. Por fim, vale ressaltar o outro aspecto que mencionei no começo, o prático, que é a forma com que comunicamos tudo isso aos educadores e os ajudamos a explorarem essas conexões ao máximo. Um grande aliado nisso é a BNCC, que nos permite indicar de forma muito prática os elementos das variadas disciplinas que estão presentes em cada aula.

De que forma as coleções do Nave à Vela ajudam o aluno a conectar as diversas disciplinas, possibilitando um aprendizado mais amplo?

Começo com o Guia do Inovador das Galáxias (GIG), nossa coleção voltada para o Ensino Fundamental I. Para examinarmos um exemplo prático, recorro a uma aula do 3º ano chamada “O museu esquecido”. Nela os alunos se deparam com o problema de um museu que, por ter sido deixado de lado pelos habitantes da cidade, começa a perder sua memória (é importante dizer que, no planeta em que a aventura se passa, os objetos e construções têm vida!). Para ajudá-lo a atrair público, as crianças têm o desafio de modernizá-lo, tornando-o interativo. 

Em uma das atividades, eles deverão montar um brinquedo estruturado que se torna um jogo de tabuleiro, no qual vão praticar habilidades matemáticas relacionadas à localização espacial (representação de deslocamentos com bases em pontos de referência, para citar a descrição presente na BNCC). A matemática também está presente na resolução final, quando eles utilizam a programação em blocos (cujo funcionamento está conectado à lógica de forma extremamente orgânica e que também permite o trabalho com conceitos aritméticos, por exemplo) aliada à montagem de uma estrutura física para criar o novo painel digital do museu, que responde ao toque.

Todas essas atividades, porém, estão sendo movimentadas por uma trama que se conecta a uma importante reflexão acerca da importância dos patrimônios históricos e culturais para a identidade de um povo. Na conclusão desta aventura, ainda temos um desafio de letramento em que os alunos conhecem o gênero textual autobiografia, suas características e função, e tentam construir um pequeno relato sobre si mesmos. 

Então, a partir desse breve exemplo creio que é possível perceber a forma natural como diferentes assuntos se conectam dentro de um contexto de resolução de problemas e da execução de atividades práticas. E se eu citei diretamente alguns componentes curriculares que aparecem de forma explícita, como História, Matemática e Português, ainda deixei de mencionar muitas capacidades que perpassam praticamente todas as nossas aulas, como a coordenação motora fina (para montar o brinquedo e o painel interativo, por exemplo) e as competências socioemocionais (autonomia, planejamento, trabalho em equipe, respeito às diferenças, entre outras).

Portanto, tais conexões estão presentes em todas as nossas coleções e, mais especificamente, em todas as nossas experiências educacionais. Vale ressaltar que nas duas coleções destinadas ao Ensino Fundamental (GIG e Missão Maker), trabalhamos com aulas-repertório (como exemplificado) que preparam os alunos para desenvolverem projetos em que terão ainda mais autonomia e liberdade de criação e que trabalham com temas transversais – isto é, temas atuais e relevantes em que diversos campos do conhecimento podem ser explorados. Já nas duas pontas do Ensino Básico, os temas transversais movimentam as experiências de todo o ano letivo. 

No Engenhocas, para alunos de 3, 4 e 5 anos, temos histórias conectadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Assim como no GIG, as narrativas conduzem a problemas que deverão ser solucionados pelos alunos, o que é feito na Educação Infantil pela montagem de brinquedos estruturados e pela sua utilização em brincadeiras que apresentam conceitos dos mais variados: coletar dados, ordenar processos, motivar e convencer, criar uma escala, consertar, imaginar, experimentar outro ponto de vista.

Enquanto isso, no Ensino Médio os alunos se preparam para um mundo em constante e rápida transformação por meio do Decole nas Ideias. O foco aqui é obter habilidades conectadas às competências propostas pelo Nave à Vela (Curiosidade Artístico-Científica, Intenção Criativa, Construção Colaborativa e Pensamento Complexo) vivenciando dois processos criativos que adaptamos à realidade escolar: o Design Thinking e o Design Sprint. Novamente há temas transversais que movimentam cada um dos módulos e que abarcam diversos componentes curriculares. Mas aqui também há outro componente importante que reforça a interdisciplinaridade: as áreas maker. Ao criar soluções dentro de campos como “Eletrônica e robótica”, “Criação digital”, “Fabricação Manual” e outros, os alunos necessariamente terão que buscar, explorar e unir conhecimento de distintas áreas do conhecimento. 

Na sua opinião, por que as escolas encontram dificuldade em trabalhar a interdisciplinaridade de uma maneira interessante?

Acredito que a dificuldade central ainda seja compreendê-la e trabalhá-la como um todo, seja de forma interessante ou não. O que acontece é que ainda há enorme resistência ao trabalho dos componentes curriculares de forma interligada simplesmente porque isso pressupõe um certo desmonte de uma estrutura compartimentada do conhecimento que é extremamente antiga. Não se engane: esse desafio está posto no Ensino Básico, mas também nas universidades e até mesmo nas empresas! Unir conhecimentos, trabalhar distintas especialidades de forma conectada, é algo difícil, mas crucial nos tempos em que vivemos.

Parece-me que as escolas que estão buscando trabalhar por meio da lógica de projetos durante todo o ano letivo estão dando um passo muito relevante nesse sentido.

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